
Acordo MERCOSUL-União Europeia entra em vigor e já começa a redesenhar comércio, logística e estratégia das empresas brasileiras
Com aplicação da vertente comercial iniciada em 1º de maio, o tratado sai do campo diplomático e passa a influenciar decisões reais de importação, exportação, contratos e cadeias produtivas
O acordo entre MERCOSUL e União Europeia entrou oficialmente em vigor em sua fase comercial no dia 1º de maio de 2026, após mais de duas décadas de negociação. O marco encerra um ciclo político e inaugura outro, mais sensível para o setor produtivo: o da adaptação prática ao novo ambiente de comércio entre os blocos.
A partir de agora, o tratado deixa de ser um tema de diplomacia e passa a interferir diretamente no dia a dia de empresas que operam com importação, exportação, logística e cadeias produtivas internacionais.
Na prática, o Acordo inicia um processo gradual de redução de tarifas, ampliação de acesso a mercados e aumento da previsibilidade regulatória. Embora seus efeitos não sejam imediatos em todos os setores, o impacto começa a ser sentido já na forma como empresas revisam contratos, planejam operações e reposicionam suas estratégias comerciais.
Para Rodrigo Bueno Prestes, especialista em direito internacional econômico, o principal erro neste momento é subestimar a velocidade com que o mercado reage.
“O acordo entrou em vigor juridicamente agora, mas economicamente ele começa a produzir efeito antes mesmo de estar completamente consolidado. Empresas não esperam a maturação institucional para se movimentar. Elas se antecipam”, afirma.
O que muda na prática
Entre os efeitos mais imediatos está a revisão de custos e condições de acesso ao mercado europeu. Setores industriais brasileiros passam a operar com maior previsibilidade tarifária, enquanto empresas europeias ganham espaço para ampliar presença no mercado sul-americano.
A tendência é de aumento progressivo do fluxo de comércio, especialmente em segmentos industriais, insumos intermediários e produtos agroindustriais. Mais do que volume, o que começa a mudar é a lógica das operações.
“O acordo não impacta apenas a quantidade de comércio, mas a forma como ele acontece. Cadeias passam a ser mais integradas, contratos mais estáveis e decisões mais orientadas por previsibilidade regulatória”, diz Rodrigo.
Esse movimento já começa a pressionar empresas brasileiras a reavaliar custos, eficiência operacional e posicionamento competitivo. Em muitos casos, o desafio não será apenas exportar mais, mas competir melhor dentro de um ambiente mais aberto.
Logística deixa de ser suporte e vira estratégia
Um dos efeitos mais imediatos do Acordo aparece fora do radar mais óbvio: na logística.
A expectativa é de que o novo cenário leve a ajustes em rotas comerciais, aumento da demanda por transporte marítimo, reorganização de cadeias de distribuição e maior exigência sobre eficiência portuária e processos aduaneiros.
Isso ocorre porque a redução de barreiras comerciais tende a incentivar operações mais frequentes, contratos mais estruturados e maior integração entre diferentes etapas da cadeia produtiva.
“A logística deixa de ser um custo operacional e passa a ser um fator decisivo de competitividade. Em um ambiente mais aberto, quem opera melhor ganha mais espaço”, afirma.
No caso brasileiro, esse ponto ganha ainda mais relevância. Gargalos históricos, como custo de transporte, burocracia e limitações de infraestrutura, passam a pesar mais em um cenário de maior exposição à concorrência internacional.
Oportunidade real, mas não automática
O Acordo também abre espaço para o Brasil ampliar sua participação em cadeias globais de valor, atrair investimento e diversificar sua pauta exportadora.
No entanto, esse movimento depende de fatores internos que vão além do tratado.
Sem avanços em produtividade, ambiente regulatório e eficiência logística, o país corre o risco de ampliar o fluxo comercial sem necessariamente capturar mais valor.
“Existe uma diferença importante entre vender mais e ganhar mais. O Acordo pode aumentar o comércio, mas a captura de valor depende de como o país se posiciona dentro dessas cadeias”, explica Rodrigo.
Esse risco se torna mais evidente em setores de maior intensidade tecnológica, onde empresas europeias tendem a entrar com maior competitividade.
Um novo tipo de disputa
Com o Acordo em vigor, a dinâmica entre MERCOSUL e União Europeia entra em uma nova fase.
A relação deixa de ser apenas comercial e passa a ser também competitiva. Empresas dos dois blocos passam a disputar espaço de forma mais direta, tanto no mercado externo quanto dentro do próprio Brasil.
Para Rodrigo, esse é o ponto central que deve orientar a leitura do momento atual.
“O Acordo não garante resultado para ninguém. Ele redefine as condições da disputa. A partir daqui, o que vai determinar o ganho não é o tratado em si, mas a capacidade de cada país e de cada empresa de operar dentro dele.”
O que começa agora
O impacto do acordo não será imediato nem uniforme, mas já começou.
Empresas começam a revisar estratégias, cadeias logísticas passam a ser ajustadas e decisões de investimento começam a considerar o novo cenário.
Mais do que um marco formal, o dia 1º de maio tende a ser lembrado como o início de uma mudança gradual, mas estrutural, na forma como Brasil e Europa se relacionam economicamente.
A pergunta, agora, não é mais se o Acordo vai funcionar.
É quem está preparado para operar dentro dele.

