
Onde isso vai parar? Quando 20 perguntas custam 500ml de água — e a indústria tenta equilibrar a conta
A matemática implacável da era inteligente: cada dado processado pesa na conta de energia — e a indústria já busca soluções para essa equação
Esse é o grande paradoxo tecnológico do nosso tempo: nunca utilizamos tanta inteligência artificial — e nunca refletimos tão pouco sobre a energia necessária para sustentar tudo isso.
Na indústria, essa conta ficou impossível de ignorar. À medida que o mercado avança para a era da Indústria 5.0, dados, máquinas sensorizadas e sistemas de IA ganham escala — assim como o consumo de energia necessário para sustentar tudo isso.
“A automação industrial virou apenas uma parte da conversa. A indústria como um todo já opera em um patamar 5.0, onde tudo gera dados, máquinas, sensores, hardware, trabalhadores, e tudo isso precisa ser processado quase em tempo real”, explica Andrey Nikollas Bucko, engenheiro eletricista na Reymaster Materiais Elétricos.
O impacto de toda essa integração e da IA é significativo. Estima-se que o bot da OpenAI gaste pelo menos 500 mil kWh de energia para responder 200 milhões de solicitações a cada dia. Esse total, segundo a revista The New Yorker, equivale a quase 17 mil vezes mais do que o gasto da média das residências nos Estados Unidos, no mesmo período.
Outra pesquisa, agora do The Washington Post, mostra que o GPT-4 poderia demandar o equivalente a três garrafas de água para gerar 100 palavras, se nos basearmos em modelos e cenários específicos de carga e eficiência energética dos datacenters.
Considerando a estimativa de 1,5 litro de água para cada 100 palavras processadas, o uso diário do ChatGPT equivaleria ao consumo necessário para encher cerca de 1.500 piscinas olímpicas por dia, apenas para resfriar e manter seus data centers em operação. Isso ilustra bem a lógica dessa comparação. Mesmo “pequenas” interações somadas em escala global geram impacto material.
Já uma pesquisa das universidades do Colorado Riverside e da Texas Arlington aponta que o consumo pode chegar a 500 ml para cada 20 a 50 perguntas, dependendo da infraestrutura.
“Quando pensamos em máquinas operando 24 horas por dia, a conta muda completamente. A IA industrial exige muito mais energia e capacidade de processamento do que o uso doméstico, e esse custo se espalha por toda a cadeia — do data center às indústrias e, no fim, ao consumidor. É a matemática implacável da era inteligente”, explica Andrey.
Marco Stoppa, diretor comercial da Reymaster, destaca que o conceito de Indústria 5.0 passa, agora, também pela energia. A questão central é como processar tamanha quantidade de dados sem pressionar — ou até colapsar — o sistema elétrico. Ele sintetiza essa mudança: “A 5.0 traz um desafio novo: não basta ter sensores, conexão e IA. É preciso garantir que tudo isso opere com eficiência energética. Caso contrário, o custo explode e o modelo não se sustenta.”
Segundo ele, a resposta do mercado para essa nova indústria vem na forma de componentes mais compactos e low-energy, capazes de operar com menor consumo.
“Enquanto a inteligência artificial aumenta o gasto energético global, o setor elétrico corre para equilibrar a balança. É aí que entram tendências que devem dominar a indústria em 2026: equipamentos com alta compactação, baixa corrente, eficiência luminosa e processamento inteligente”, explica Marco Stoppa.
Os especialistas da Reymaster destacam três tendências tecnológicas que já respondem ao novo desafio energético da Indústria 5.0:
1 – CLPs compactos e de baixa energia
Os novos Controladores Lógicos Programáveis chegam ao mercado com consumo reduzido, componentes mais compactos, maior poder de processamento e menor necessidade de dissipação térmica. “Um bom exemplo dessa evolução é a linha Siemens S7-1200 G2. As CPUs 1212 e 1214 reduzem a dissipação térmica em 20% e 30%, respectivamente, ao mesmo tempo em que mais do que dobraram o desempenho em relação à geração anterior”, explica o especialista da Reymaster.
“Os novos CLPs, como os da Siemens, já vêm preparados para a lógica energética da 5.0”, completa Andrey Nikollas Bucko.
Segundo ele, o ganho não se limita à performance. “Há também um avanço relevante do ponto de vista ambiental. A pegada de carbono caiu para 12,4 kg de CO₂ na CPU 1212, uma redução de 10%, e para 14,4 kg na CPU 1214, com queda de 28%. Isso mostra como é possível combinar alta capacidade de processamento com menor impacto ambiental.”
O resultado, acrescenta, vem do uso mais inteligente de materiais e do redesenho dos componentes. “Mesmo com um salto tecnológico, o aumento de peso ficou abaixo de 15%, o que evidencia um equilíbrio entre eficiência, sustentabilidade e robustez industrial”, diz o engenheiro.
2 – Iluminação industrial inteligente
O salto tecnológico é explícito: enquanto luminárias antigas entregavam cerca de 100–120 lm/W, hoje já existem modelos ultrassustentáveis, com quase 200 lm/W — o dobro de eficiência, iluminando melhor e gastando menos.
“Para se ter uma ideia dessa evolução, a Philips (Signify) implementou recentemente o selo “Iluminação Ultra Efficient”, uma autodeclaração global que é aplicado a produtos que cumprem os rigorosos critérios da IEA (Agência Internacional de Energia) de eficiência energética e de redução da emissão de carbono”, conta Andrey Nikollas Bucko.
Andrey destaca que alguns produtos já carregam o selo, entre eles o painel LED RC199V. “O equipamento oferece benefícios como a redução da emissão de CO₂ ao longo de sua vida útil, em comparação com um LED padrão, além de gerar uma economia de até 42% no consumo de energia”, explica.
3 – Sensores
A adoção de sensores em máquinas e em dispositivos que permitam a localização de trabalhadores em ambientes industriais está se tornando cada vez mais comum. Afinal, na Indústria 5.0, tudo produz informação, que é processada, armazenada e analisada. Cada dado coletado exige hardware, conectividade, processamento, inteligência artificial e energia.
“A discussão energética que vemos no consumidor residencial — bandeira amarela, vermelha, adicionais na tarifa — é apenas a ponta visível de um iceberg que já atinge o B2B. Por isso, o Brasil precisa preparar sua infraestrutura para o salto 5.0. Enquanto isso, as indústrias estão fazendo sua parte, como trocar componentes, reduzir consumo, otimizar processos”, explica o diretor da Reymaster, Marco Stoppa.
Um exemplo é a linha de sensores multimodo Telemecanique Sensors que oferece várias vantagens, principalmente para automação industrial e aplicações exigentes. Stoppa acrescenta: “um único sensor, várias funções, alta flexibilidade de aplicação e configuração simples”.
“A tendência para 2026 aponta que a indústria vai consumir mais inteligência, mas vai exigir muito mais eficiência. Porque inteligência artificial sem controle energético não é solução; é problema para a fábrica, para o país e para o mundo”, conclui.

