
Crise diplomática com Argentina fragiliza indústria brasileira de automóveis, autopeças e eletrodomésticos
Redação Indústria S/A
A crise diplomática entre Brasil e Argentina impacta a indústria brasileira, especialmente os setores automotivo, de autopeças e eletrodomésticos. A falta de precisão no inventário de estoque agrava a situação para as empresas nacionais.
Rebaixamento de relações com a Argentina e falhas em estoque fragilizam indústria brasileira
Automóveis, autopeças e eletrodomésticos estão entre os mais impactados
Brasil e Argentina parecem estar longe de uma solução para a crise diplomática que culminou ontem no rebaixamento das relações entre os países. Causada pelo campo político, a situação tende a ter repercussão no campo econômico, limitada no curto prazo.
Frederico Favacho, sócio do Santos Neto Advogados e especialista em Direito Internacional, entende que o setor automotivo será o mais prejudicado. “Se a crise escalar para o terreno comercial, é esse setor, junto a outros historicamente sensíveis na relação bilateral, como autopeças e linha branca de eletrodomésticos, que tende a se ressentir primeiro”, afirma.
A Argentina é a maior parceira comercial do Brasil dentro do Mercosul e o terceiro maior destino das exportações brasileiras, com corrente de comércio de cerca de US$ 31 bilhões em 2025. O bloco perdeu peso relativo no comércio exterior brasileiro nas últimas décadas com as vendas à Argentina equivalendo hoje a cerca de 5% das exportações totais do país, muito atrás de China e Estados Unidos. Ainda assim, o impacto para o Brasil não seria desprezível
“O Mercosul voltou a ser, em 2025, o principal destino dos manufaturados brasileiros (23% do total, à frente dos EUA), as exportações à Argentina cresceram 31,4% no ano e o Brasil acumula superávit bilateral crescente — ou seja, numa escalada comercial, a indústria brasileira teria mais a perder do que sugere o peso agregado do bloco”, ressalta o advogado.
Ainda que ruim para o Brasil, Frederico entende que a crise diplomática terá mais peso na economia argentina, já que o fluxo predominante é de produtos brasileiros para o mercado argentino. “O Brasil responde por cerca de 24% de suas importações e absorve aproximadamente 38% das manufaturas de origem industrial que o país exporta. O setor mais exposto, de longe, é o automotivo, cujas cadeias produtivas são profundamente integradas. Cerca de 67% dos veículos exportados pela Argentina têm o Brasil como destino, enquanto aproximadamente 60% dos carros vendidos no mercado argentino são fabricados no Brasil, por isso será um dano assimétrico em desfavor da Argentina”, explica.
Outro problema recorrente na Indústria nacional, no entanto, pode mudar um pouco o peso nessa balança. “O inventário de estoque dos produtos dessas manufaturas, que poderia ser uma garantia para as empresas, tem cerca de 15% de divergência entre estoque físico e o sistema”, comenta Pedro Sobreira, Diretor da Eco Inventory e especialista em auditoria e gestão de inventário.
Segundo o especialista, o índice é considerado muito alto para os padrões internacionais e tira alguns trunfos das mãos das empresas brasileiras no enfrentamento dessa crise. “Quem estiver com o inventário mais preciso dos seus produtos já estocados, se garantirá melhor. Como os setores citados dependem muito de cadeias internacionais de suprimento, correm o risco de aceitar qualquer aumento de preço de fornecedor e imposição de prazos. Se souberem quanto estoque têm para atender o mercado e por quanto tempo, evita duas armadilhas muito comuns quando há crises em relações internacionais comerciais: a compra de emergência (quase sempre mais cara) e o excesso de compra (dinheiro parado e risco de sobra). Estoque é dinheiro líquido”, alerta.
O impacto vai chegar ao consumidor final, seja para melhor ou pior. “Se um produto fica escasso por causa da crise, as empresas podem segurar o preço para ganhar mercado ou ajustar o valor para proteger a margem. Mas isso só pode ser feito com base em dados reais de inventário, não em estimativa”, conclui.
Tags:brasilargentinaindustriaautomotivocomercioestoque
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