
Fabricante de embarcações do Paraná aposta em soluções sustentáveis e vira referência nacional diante da crise hídrica
Poluição por contaminantes tem agravado o problema, comprometendo a qualidade dos recursos hídricos em diferentes regiões do planeta
O alerta não é novo, mas ganhou contornos mais concretos em 2026. A água não está mais faltando apenas quando os reservatórios baixam; o problema começa antes e, muitas vezes, longe de onde ele aparece. O relatório Falência Hídrica Global, apresentado pela Universidade das Nações Unidas, aponta que a combinação entre mudanças climáticas e práticas produtivas intensivas, como o uso de insumos agrícolas, o descarte irregular de resíduos e a presença crescente de compostos químicos, vem alterando não apenas a disponibilidade, mas também a qualidade da água em escala global.
Desse modo, o foco se amplia para atividades que, até pouco tempo, ficavam fora do centro do debate ambiental. A indústria náutica é um desses casos; ainda que não figure entre os principais emissores, o setor passa a ser observado por impactos mais específicos, ligados sobretudo ao uso de revestimentos químicos em embarcações e aos efeitos acumulados dessas substâncias no ambiente aquático.
As tintas anti-incrustantes, aplicadas nos cascos para evitar o acúmulo de organismos, são um exemplo. Desenvolvidas para aumentar a eficiência e reduzir a necessidade de manutenção, essas substâncias liberam compostos ao longo do tempo. Em determinados contextos, esses elementos se acumulam na água e afetam o equilíbrio dos ecossistemas.
Pesquisas mais recentes, publicadas entre 2025 e 2026, indicam que esse impacto permanece relevante mesmo após restrições regulatórias. Segundo um estudo conduzido por pesquisadores da Chalmers University of Technology e publicado na revista Marine Pollution Bulletin, identificou-se que biocidas e metais presentes nessas tintas, como cobre e zinco, continuam sendo liberados em volumes significativos no ambiente aquático, contribuindo para a contaminação de áreas costeiras e portuárias. Em alguns casos, essas substâncias representam uma parcela expressiva da carga total de metais nesses ecossistemas, com potencial de alterar comunidades biológicas e comprometer a qualidade da água ao longo do tempo.
A resposta da indústria começa a aparecer menos em discursos e mais em ajustes de processo.
“Existe uma mudança em curso na indústria para reduzir o impacto ao longo de todo o ciclo de vida das embarcações. Isso envolve a adoção de tecnologias menos agressivas ao meio ambiente, a incorporação de materiais reaproveitados na produção e, principalmente, o aumento da durabilidade dos produtos, o que diminui a necessidade de substituição e a geração de resíduos ao longo do tempo”, afirma Raquel Oliveira, CEO da Fluvimar, empresa brasileira de embarcações pioneira no uso de garrafas PET como sistema de flutuação dos barcos, uma solução sustentável que já faz parte da rotina da empresa há mais de duas décadas.
Raquel Oliveira, CEO da Fluvimar
No caso da Fluvimar, isso passa por decisões técnicas, como a substituição de adesivos por pintura. Segundo a empresa, enquanto os adesivos tendem a se deteriorar e liberar resíduos com o tempo, a pintura apresenta maior estabilidade.
Outra frente está dentro da fábrica. Por lá, o processo de pintura utiliza estufas com sistemas de filtragem que impedem a dispersão de partículas no ambiente, cujo objetivo é conter o resíduo antes que ele se torne um problema externo.
A eficiência também entra como variável ambiental. Uma nova estufa de secagem reduziu o tempo de produção de 24 horas para cerca de 60 minutos. O ganho não é apenas operacional: “menos tempo de processo significa menos consumo de recursos e maior eficiência energética”, destaca.
Há ainda mudanças na composição dos próprios produtos. A substituição do isopor por garrafas PET na estrutura de flutuação transforma resíduo em matéria-prima. Segundo a empresa, cerca de três toneladas de plástico são reaproveitadas por ano.
“Não há mais espaço para retrocessos. As empresas precisam se adaptar ao meio ambiente”, afirma Raquel.
Com mais de três décadas de atuação, a Fluvimar reúne cerca de 150 colaboradores diretos e produz desde embarcações de pequeno porte até modelos com capacidade para 25 pessoas. Para 2026, a companhia projeta a ampliação do parque fabril e a entrada em novos mercados internacionais. O crescimento, agora, passa por uma variável que não estava no centro da equação: como produzir sem ampliar a pressão sobre um recurso que já opera no limite, a água, conclui.

