
Importação da China vai além do preço e busca inovação e desenvolvimento de produtos
Em resumo
A importação de produtos da China deixou de focar apenas no preço e agora prioriza inovação e desenvolvimento. Empresas brasileiras buscam na indústria chinesa capacidade de engenharia própria e soluções específicas para seus mercados, transformando a relação comercial em parceria estratégica.
| Setor | Negócios e Indústria |
|---|---|
| Publicado em | |
| Autoria | Redação Indústria S/A |
| Tempo de leitura | 4 min |
Comprar barato deixou de ser a principal vantagem de importar da China
Empresas brasileiras passam a buscar na China não apenas custo mas também inovação, escala e desenvolvimento de produtos
Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil importou US$ 51,6 bilhões em produtos chineses, alta de 9,5% sobre igual período do ano anterior. O país asiático respondeu por 26,4% de todas as compras brasileiras no exterior, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Para Gustavo Braz, CEO do Grupo PMD, empresa que atua nos segmentos de importação, distribuição e desenvolvimento empresarial, o movimento revela uma mudança que vai além do aumento do comércio.
A indústria chinesa deixou de competir apenas pelo menor preço e passou a ocupar espaço como desenvolvedora de produtos, tecnologia e soluções específicas para diferentes mercados.
Essa transformação aparece também nos indicadores de inovação. A China alcançou a décima posição entre 139 economias no Índice Global de Inovação 2025, elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, a WIPO. No mesmo ano, os investimentos chineses em pesquisa e desenvolvimento chegaram a 3,9 trilhões de yuans, crescimento de 8,1%, e passaram a representar 2,8% do PIB.
“O empresário brasileiro que ainda enxerga a China apenas como um lugar para encontrar o produto mais barato está olhando para uma realidade que mudou. Hoje existem fabricantes com engenharia própria, capacidade de desenvolver uma especificação para o cliente e estrutura para transformar uma ideia em produto em escala. A conversa deixou de ser apenas quanto custa e passou a incluir o que podemos criar juntos”, afirma Gustavo.
A experiência do executivo no mercado de ferramentas diamantadas acompanha essa mudança de perto. Em segmentos ligados à construção civil e à indústria, a relação com fornecedores passou a envolver testes, escolha de materiais, adaptação de desempenho, desenho de embalagens, desenvolvimento de linhas próprias e adequação às características do consumidor brasileiro. Na prática, a fábrica pode deixar de ser apenas o local onde uma mercadoria é comprada e assumir parte do processo de desenvolvimento.
Os próprios números da indústria chinesa ajudam a dimensionar essa evolução. Em 2025, a produção da manufatura de alta tecnologia cresceu 9,4%, enquanto a fabricação de equipamentos avançou 9,2%. Os dois segmentos passaram a representar, respectivamente, 17,1% e 36,8% do valor adicionado da indústria chinesa de maior porte. As exportações de produtos mecânicos e elétricos alcançaram cerca de US$ 2,3 trilhões naquele ano, avanço de 8,4%.
Para quem importa, essa maior sofisticação também exige outra postura. Escolher um parceiro apenas por uma diferença pequena de preço pode significar abrir mão de qualidade, capacidade técnica, estabilidade de fornecimento e possibilidade de desenvolver itens exclusivos. A avaliação passa a considerar estrutura fabril, controle de qualidade, histórico de exportação, capacidade de adaptação, certificações e disposição para construir produtos voltados ao mercado de destino.
“Quando o empresário visita uma fábrica e entende como aquele fornecedor pesquisa, testa e produz, a negociação muda completamente. Ele começa a perceber que pode discutir composição, desempenho, acabamento e posicionamento do produto. É nesse ponto que a importação deixa de ser uma simples operação de compra e passa a fazer parte da estratégia da empresa”, ressalta o CEO do Grupo PMD.
A mudança também abre espaço para marcas próprias. Ao trabalhar diretamente com fabricantes capazes de customizar produtos, distribuidores brasileiros podem criar linhas exclusivas, controlar melhor seu posicionamento e reduzir a comparação baseada somente em preço. Para Gustavo, essa possibilidade é particularmente relevante em mercados nos quais diferentes empresas comercializam itens muito semelhantes.
O desafio é que a evolução chinesa não elimina os riscos da importação. Ao contrário, torna a seleção de parceiros mais importante. Uma fábrica tecnologicamente avançada não necessariamente será adequada para qualquer operação, e preço, prazo, lote mínimo, propriedade de moldes, padrão de qualidade e capacidade de reposição precisam ser analisados antes do fechamento do pedido.
“A China oferece hoje um nível de desenvolvimento que permite ao empresário brasileiro pensar além da compra pronta. Mas isso exige conhecer a cadeia, escolher o parceiro certo e saber exatamente o que se quer construir. Quem vai apenas atrás de preço encontra preço. Quem vai atrás de desenvolvimento pode voltar com um produto e uma vantagem que o concorrente ainda não tem”, aponta Gustavo.
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