
AMADURECIMENTO DO CONSUMIDOR GERA NOVA DEMANDA NAS INDÚSTRIAS TÊXTEIS
*Por Andreia Eliete Caviguioli Voltolini
O varejo de moda vive um momento intenso de transformação: ainda que o cenário nos últimos anos tenha indicado desaceleração, na prática, há sinais claros de maturidade do consumidor. A pandemia acelerou a cultura das compras online, e o que era uma tendência de sobrevivência se fixou como um comportamento estrutural. Com o aumento da procura por produtos em plataformas digitais, os e-commerces e marketplaces estrangeiros ganharam destaque pelos preços baixos e ciclos de produção ágeis. Segundo o IBGE, em dezembro de 2025 as vendas de tecidos, vestuário e calçados nacionais estavam 19,8% abaixo da pré-pandemia, refletindo uma mudança profunda nos hábitos de compra.
Outro fator relevante é o envelhecimento da população. Com o aumento da expectativa de vida, o mercado passa a atender um público mais amplo e diverso em termos de faixa etária. Entre 2014 e 2024, a população adulta cresceu 12,4%, segundo o IEMI com base em dados do IBGE,o que exige das marcas uma adaptação estética e funcional, que contemple diferentes estilos de vida e necessidades.
Além disso, fatores como sustentabilidade, consciência social e restrições econômicas também vêm redefinindo a jornada de compra. Dados da Scanntech mostram que mesmo com renda em recuperação, o volume de unidades vendidas no Brasil caiu 1,8% entre janeiro e outubro de 2025 em comparação com o ano anterior. O consumidor não deixou de comprar, mas está escolhendo melhor e de forma mais criteriosa, contribuindo para uma nova lógica de demanda para a indústria têxtil na qual há menos volume impulsivo e mais intenção.
Esse novo perfil opera com mais critério, comparando preços, revisitando decisões e buscando valor real em cada aquisição. Para o setor de moda, tradicionalmente pautado pela renovação constante, o impacto é direto e cada compra precisa justificar sua relevância.
A partir disso surge um fenômeno ainda pouco explorado: a migração do valor percebido da tendência para a funcionalidade expandida. Não é que o consumidor mais amadurecido esteja abandonando o desejo por estilo, mas está exigindo cada vez mais que as peças entreguem conforto, durabilidade, versatilidade e coerência com sua rotina. Isso também ajuda a explicar por que categorias ligadas ao bem-estar e ao uso prolongado ganham espaço, enquanto compras puramente aspiracionais perdem força.
Outro efeito desse movimento é a consolidação de um comportamento aparentemente contraditório, mas altamente estratégico de economizar em volume para investir melhor em escolhas. Relatórios da McKinsey, por exemplo, apontam que os clientes têm alternado entre itens básicos mais acessíveis e investimentos pontuais em produtos de maior valor agregado. Na prática, isso resulta em guarda-roupas mais enxutos, porém mais pensados, com peças de maior qualidade, design atemporal e múltiplos usos.
Para a indústria têxtil, isso representa uma mudança estrutural na lógica de desenvolvimento. A previsibilidade baseada em ciclos de coleção perde força diante de um usuário que transita entre canais, compara preços em tempo real e redefine seu mix de compra constantemente. Esse cenário também reposiciona o papel das marcas que, mais do que comunicar tendências, passam a atuar como mediadoras de decisão, ajudando o consumidor a entender o valor de cada escolha.
Para quem consegue ler esse movimento, há tanto oportunidades de vender mais peças quanto de construir relações mais duradouras com um público que, agora, busca saber exatamente por que está comprando.

