
Disputa global por terras raras avança para fabricação de ímãs; Brasil tem reservas, mas precisa de indústria
Em resumo
A corrida global por terras raras evolui para a fabricação de ímãs de alto valor agregado, com a China dominando a cadeia industrial. O Brasil, apesar de grandes reservas, enfrenta o desafio de desenvolver sua própria capacidade de processamento para transformar recursos minerais em componentes tecnológicos.
| Setor | Indústria e Tecnologia |
|---|---|
| Publicado em | |
| Autoria | Redação Indústria S/A |
| Tempo de leitura | 8 min |
Terras raras não bastam: a nova disputa global é por quem consegue fabricar os ímãs
Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, mas corrida entre China, Estados Unidos e outras economias mostra que o maior desafio está em transformar recursos minerais em componentes de alto valor agregado
Ter terras raras no subsolo deixou de ser suficiente para garantir protagonismo na nova corrida global por minerais críticos.
Enquanto Estados Unidos, Europa e outras economias aceleram investimentos para reduzir a dependência chinesa, um gargalo começa a ganhar espaço no debate internacional: entre retirar uma terra rara do solo e transformá-la em um ímã de alta performance existe uma cadeia industrial sofisticada, cara e altamente concentrada.
Os números ajudam a dimensionar o problema.
A China respondeu por aproximadamente 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em ímãs em 2024, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Quando se avança na cadeia, porém, a concentração aumenta: o país controlou 91% do refino e nada menos que 94% da fabricação mundial de ímãs permanentes sinterizados.
Há duas décadas, a participação chinesa nessa última etapa era próxima de 50%.
Isso significa que, enquanto novos projetos de mineração começam a surgir em diferentes regiões do planeta, a transformação da matéria-prima em um componente industrial continua extraordinariamente concentrada.
É nesse ponto que a nova disputa pelas terras raras começa a mudar de natureza.
Da mina ao ímã
O termo "terras raras" reúne 17 elementos químicos. Entre eles estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, fundamentais para a produção de ímãs permanentes de alta performance.
Os ímãs de neodímio-ferro-boro, conhecidos como NdFeB, estão entre os ímãs permanentes mais fortes disponíveis comercialmente. São utilizados em motores elétricos, sistemas de automação, robótica, equipamentos industriais, turbinas eólicas, eletrônicos, data centers e diferentes tecnologias que exigem alta potência magnética em espaços reduzidos.
Mas existe uma longa distância industrial entre uma reserva mineral e esse produto.
Depois da extração, o minério precisa passar por beneficiamento, concentração, separação química e refino. Os óxidos obtidos precisam então ser convertidos em metais, posteriormente em ligas e pós magnéticos e, somente depois, em ímãs.
É justamente nessas etapas intermediárias e finais que se encontra um dos principais obstáculos para países que pretendem reduzir sua dependência da China.
A própria programação da Argus Rare Earths & Critical Minerals Conference, prevista para março de 2027, em Washington, reflete essa mudança. Entre os temas centrais do encontro estão desenvolvimento "mine-to-market", processamento, financiamento, precificação, reciclagem e expansão da fabricação de ímãs fora da China. A agenda deixa explícita uma questão que ganhou importância para governos e indústria: transformar projetos minerais em cadeias comercialmente viáveis.
A pirâmide fica menor a cada etapa
Um levantamento recente da IEA mostra a dimensão desse descompasso.
Os projetos existentes e anunciados fora da China podem elevar a capacidade de mineração de terras raras para ímãs a mais de 50 mil toneladas de conteúdo de elementos de terras raras até 2035.
Na etapa de separação e refino, entretanto, a capacidade projetada cai para menos de 40 mil toneladas.
Quando a análise chega à produção de metais, ligas e ímãs acabados, os projetos anunciados até o início de 2026 somavam aproximadamente 18 mil toneladas, apenas cerca de um terço da capacidade diversificada projetada na mineração.
Em outras palavras: o mundo está conseguindo avançar mais rapidamente na abertura de novas fontes minerais do que na construção da indústria necessária para transformá-las em ímãs.
Para Rodolfo Midea, diretor da Fácil Negócio Importação, uma das principais importadoras de ímãs de neodímio do Brasil, essa diferença é fundamental para compreender a atual disputa geopolítica.
"Quando falamos em terras raras, existe uma tendência de olhar imediatamente para o tamanho das reservas. Mas a reserva mineral é apenas o começo. Entre tirar o minério da terra e colocar um ímã dentro de um motor existe uma cadeia tecnológica e industrial enorme. É nessa cadeia que está boa parte do valor e também da dependência mundial."
Exportações chinesas mostram o tamanho da dependência
As restrições adotadas pela China em 2025 transformaram um risco que parecia teórico em um problema concreto para a indústria.
Em abril daquele ano, Pequim estabeleceu controles de exportação sobre sete terras raras pesadas, compostos relacionados e determinados ímãs. Nos meses seguintes, os embarques recuaram fortemente, dificultando o abastecimento de fabricantes de automóveis nos Estados Unidos, Europa e outros mercados.
A dependência permanece evidente em 2026.
Somente em julho deste ano, a China enviou 647 toneladas de ímãs permanentes de terras raras aos Estados Unidos, segundo dados alfandegários chineses reportados pela Reuters. Foi o segundo maior volume mensal desde a introdução dos controles de exportação.
As terras raras também continuaram no centro das negociações comerciais entre Washington e Pequim em 2026. Em julho, autoridades americanas voltaram a pressionar o governo chinês sobre compromissos relacionados ao fornecimento desses materiais.
"Quando um país concentra mais de 90% de uma etapa essencial da cadeia, qualquer mudança regulatória ou comercial deixa de ser um assunto distante e pode se transformar rapidamente em risco industrial", afirma Midea.
O Brasil tem reserva. E depois?
Para o Brasil, a discussão ganha uma dimensão particular.
Segundo o Mineral Commodity Summaries 2026, do US Geological Survey (USGS), o país possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras. A China aparece com 44 milhões de toneladas.
Apesar desse patrimônio mineral, a produção brasileira ainda é pequena. O mesmo levantamento estima que o país tenha produzido cerca de 2 mil toneladas em 2025, diante de aproximadamente 270 mil toneladas produzidas pela China.
E mesmo ampliar a mineração não resolveria sozinho a questão.
O desafio brasileiro é decidir quanto da cadeia pretende desenvolver dentro do país.
"Podemos aumentar a extração e ainda continuar dependentes", diz Midea. "Se exportarmos o recurso e depois precisarmos importar o metal, a liga ou o ímã pronto, capturamos apenas uma parcela do valor econômico dessa cadeia."
Essa discussão já começou a entrar nas relações internacionais brasileiras. O governo brasileiro vem mantendo conversas com diferentes parceiros sobre minerais críticos e estratégicos, em um momento em que grandes economias procuram diversificar suas fontes de abastecimento.
Para Midea, o interesse internacional nas reservas brasileiras deve ser encarado como oportunidade, mas também como alerta.
"A pergunta para o Brasil não deveria ser apenas quem quer comprar nossas terras raras. Deveria ser: que indústria queremos construir a partir delas? Existe uma diferença enorme entre ser fornecedor de recurso mineral e participar de uma cadeia tecnológica."
O elo que falta
A dificuldade, porém, não se resume ao investimento financeiro.
O relatório mais recente da IEA sobre minerais críticos chama atenção para um obstáculo menos visível: know-how industrial.
Processamento, refino e fabricação de materiais avançados exigem equipamentos especializados, propriedade intelectual, mão de obra qualificada e conhecimento acumulado durante anos.
Na fabricação de ímãs de terras raras, por exemplo, a IEA cita a técnica de grain boundary diffusion, utilizada para melhorar o desempenho magnético. Fora da China, há apenas um fornecedor de determinados equipamentos necessários ao processo, e seu custo pode ser mais de dez vezes superior, além de envolver prazos maiores de entrega
Isso ajuda a explicar por que simplesmente financiar novas minas não recria uma cadeia industrial.
A China construiu durante décadas um ecossistema que conecta mineração, química, metalurgia, fabricação de ímãs, fornecedores de equipamentos, conhecimento tecnológico e compradores industriais em grande escala.
Reproduzir essa estrutura exige tempo.
Uma oportunidade de 21 milhões de toneladas
Para o Brasil, portanto, as reservas podem representar uma vantagem importante, mas não garantem protagonismo.
O país pode ocupar posições diferentes nessa reorganização mundial: fornecedor de minério, produtor de óxidos separados, fabricante de metais e ligas ou, em uma estratégia mais ambiciosa, participante da produção de componentes de maior valor agregado.
A diferença entre esses caminhos será medida não apenas em toneladas exportadas, mas em tecnologia, empregos qualificados, investimentos industriais e valor capturado dentro do país.
Para Midea, o momento exige uma discussão que vá além da mineração.
"Nós já sabemos que o Brasil tem o recurso. Agora precisamos discutir o que faremos com ele. Se o mundo está procurando alternativas à China, existe uma janela de oportunidade. Mas ela não será aproveitada apenas abrindo minas. Precisamos pensar em processamento, tecnologia, formação de profissionais, indústria e mercado consumidor."
A corrida global pelas terras raras, portanto, pode estar entrando em sua segunda fase.
A primeira foi descobrir quem possui os recursos.
A próxima será determinar quem consegue transformá-los.
E, pelos números atuais, é nessa segunda disputa que a distância para a China continua muito maior.
DADOS-CHAVE | DA MINA AO ÍMÃ
Indicador
Número
Reservas brasileiras de terras raras
21 milhões de toneladas
Reservas chinesas
44 milhões de toneladas
Produção brasileira em 2025
2 mil toneladas
Produção chinesa em 2025
270 mil toneladas
Participação chinesa na mineração das terras raras para ímãs
60%
Participação chinesa no refino
91%
Participação chinesa nos ímãs permanentes sinterizados
94%
Capacidade diversificada projetada de mineração até 2035
mais de 50 mil t
Projetos de metais, ligas e ímãs fora da cadeia dominante
cerca de 18 mil t
Fontes: USGS, IEA.
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